Por que ser uma quando se pode ser várias?

Dúvida

Olhou para a o noivo com nervosismo. Leu sua mensagem para ele. Chorou.

Percebia a singeleza das cortinas, dos laços que envolviam seu bouquet. Ouviu os risos das crianças e os comentários elogiosos que as amigas e irmãs faziam a seu respeito. Queria continuar aqueles passos ritmados rumo ao altar, onde seu futuro esposo estaria lhe aguardando, com um sorriso nervoso fragmentado nos lábios.

Acompanhada de seu tio por conta da despedida prematura dos pais, chegou ao altar e olhou intensamente no fundo dos olhos daquele a quem havia prometido amar eternamente. Ouviu atentamente o que o pastor lhes aconselhava naquela noite tão especial repleta de amigos e parentes.

Algumas perguntas emergiam como suspiros de uma idosa próxima da morte. Seria mesmo possível que ele permanecesse ao seu lado por tantos anos? Tudo isso em um segundo.

Esses lampejos deixavam Inácio curioso e, por vezes, desconcertado em saber que ele mesmo poderia desistir a qualquer instante.

Ela sorriu para ele por uns instantes, pensava que seria feliz ao seu lado. Lembrou das palavras de seu pai pouco antes de sair de casa sem se despedir: “Ruim não é o casamento, mas viver com você”. Sua mãe, desconcertada, deixou aquelas palavras amargarem qualquer outro dia de sua vida antes ou depois daquela frase…

Pensou ter visto ambos naquela noite de quinta-feira, pedindo clamor pela sua própria vida. Pediam que ela ignorasse qualquer disparate que a conduzisse fora do altar. Estranho paradoxo.

Acordando de seu devaneio, ela viu seu primo carregando a aliança por sobre a bíblia esbranquiçada. Pegou uma delas cuidadosamente e colocou no dedo de seu atual esposo. Deu-lhe um beijo que selou a sua união para sempre.

Era assim que Lívia gostaria que tivessem descrito aquela noite… se ela não tivesse saído pela rua horas antes, temerosa por tudo aquilo que não conseguiria controlar.

Olhe-se

Ela só queria acordar. Lívia não sonhou naquela noite. Perdeu-se em uma viagem atemporal que lhe tirou as forças para acordar. Depois de bocejar por alguns segundos, ela se permitiu cair em meio a plumas que descansavam ao luar.

Descansou, deixou sair de si mesma. Por quê?, perguntaram-lhe uma vez. Não aguentava mais o magistério ou qualquer outra tentativa de amarrarem seu cotidiano cinético.

Chegou, sim, àquele instante de êxtase que só conhecemos no momento da morte. Aquele instante em que nossos sonhos finalmente parecem se completar, como na queda de um elevador sem ideias, como uma densa nuvem de pirulitos acompanhando um cortejo de sapos.

Era desse jeito que Lívia queria acordar. Ao abrir os olhos, ver-se como uma garça à procura de restos de Plutão em um lago. Ela abriu os olhos todos os dias depois que acordou. Viu, sim, a si mesma como alguém diferente.

Olhou o espelho e coroou sua cabeça com uma mentalidade… Era isso que lhe faltava. Um olhar, não a aparência.

Era o dia que ela devia ter chegado mais cedo no trabalho. O dia de levar todos ao instituto. Mas, acostumada com o horário, desceu lentamente pelo corrimão do ônibus, como se nada pudesse ser deixado de lado que não fosse sua calmaria matinal. Caiu um batom, ouviu do gentil senhor que estava sentado no banco contrário. Ela agradeceu e aproveitou para guardar o troco que ainda estava na sua mão.

Freio. Lívia bateu a cabeça naquele instante. O sangue desceu pelo seu nariz. Não devia ter pêgo aquele ônibus. O médico havia recomendado novamente naquela semana. Mas ela desrespeitava o que lhe mandassem. Não reconhecia ninguém acima dela. E, depois daquela batida, não reconheceria mais ninguém… mesmo.

Foi uma escolha, diziam. Acreditavam que Lívia esvaiu-se de si mesma… como um personagem que, a cada noite, encontrasse um ator diferente dentro de si.

Todos se atrasariam para chegar ao instituto naquele dia.

Queda

Escândalo na Bolsa de Valores. Era assim que era anunciada mais uma segunda-feira naquele telejornal matutino. Lívia estava presa no trânsito e não conseguia telefonar para o editor. Teria de começar o telejornal sem ela. Não conseguiu ver o jornal antes de sair e pegou as chaves correndo para ligar o carro. Era possível que ela mesma seria notícia naquele dia? Aconteceu. O acidente. A Bolsa caiu no meio da Avenida Norte. Em cima do carro de Lívia. Um escândalo para a moda, para a economia, a cultura, todas essas damas que jamais ignorariam fato que jamais se repetiria em qualquer outro lugar.

Era um instante em um milhão. Foi quando ela tomou consciência de si mesma. Sua mãe olhava sorrindo, encarando seus olhos grandes e seu riso pueril. Lívia completaria cinco anos naquela noite. E sua consciência nasceria com ela.

Enquanto sua mãe pensava nas escolhas que sua filha ainda tão pequena faria na vida, Lívia começava a pensar… A criança ensinava a mãe como a vida pode ser algo tão frágil e forte ao mesmo tempo. Como ela mesma podia ser uma tábula rasa preenchida aos poucos com sensações e sentimentos tão intensos quanto a primeira queda e o primeiro choro.

Lívia ignorou o potencial que sua consciência lhe proporcionava naquele instante. Tornou-se alguém pouco menos inteligente do que imaginava.

Desfez as malas e saiu correndo. A estação do metrô estava lotada. Lívia olhou para um senhor grisalho com óculos de aros grossos. Deixou escorrer uma lágrima quente pelo seu rosto. O álcool ainda fervia em seu sangue. Silêncio. Respirava ofegante. Deixou de lado o sutiã. Queria liberdade naquele instante. Mendigos começaram a se aproximar e a roubar suas roupas. Sorriu sem se permitir sentir… Só queria conseguir dormir.

Cansava-se daquele personagem. Havia dezessete dias e algumas horas que as olheiras se acumulavam. Como descrever a discrepância com que permanecia insandecida? Era normal. Anormal. Quem precisa da aprovação dele? Quem me faz, além de mim mesma? Saiu correndo porta de casa afora, com suas roupas. Foi desse jeito que tinha começado sua jornada andarilha.

Negou o pai naquela mesma manhã. A partir daquele instante em que se afogou em sua própria fúria, esqueceu que um dia teve um pai. Pensou a si mesma como filha da terra, do solo, de todos aqueles que denominaria agora seus irmãos. Era possível essa existência sem raízes tornar-se de fato verdadeira? Era o que Lívia agora pensava.

Pensou por longos segundos se valeria a pena esse desprezo por sua história. Mas… Sempre existe um ‘mas’, afirmou a si naquele instante. Negou seu nome. Embebedou-se de uma identidade ainda desconhecida, mas que lhe parecia, no momento, completamente etérea, quase sacra… Deixou de ser Lívia… para ser uma estatística, quando seu corpo foi encontrado embaixo do metrô naquele final de tarde.

Acidente

Leia / Assista Aqui.

Nuvem de tags